quinta-feira, 18 de julho de 2013

PENSAMENTOS SOLTOS


Eu sempre fico fazendo mó castelo há essas horas aqui, ta ligado? Lembrando do tempo que eu estava em ascensão no morro... Eu era temido, tiu (riso). Com 13 anos, entrei na firma. No começo, eu ficava só de contenção, mas conhecido como "fogueteiro". Geralmente, esse trabalho é designado para menores de idade.  Ficar de Contenção, é ficar olhando quem sai e quem entra. E avisar, através de fogos de artificio, a chegada dos cana pro chefe), era esse meu trabalho. Quando um 12x1 estoura na favela, já sabíamos que era os policia entrando na fortaleza.  Em muito pouco tempo, ganhei minha primeira 9mm. Não largava ela nem por um instante. Aquilo gerava respeito. E era maravilhoso (hehe).  Eu passava na rua, as pessoas me respeitavam mano. Antes não era assim. Até riam da minha cara. Com 16 anos, já era Falcão do morro. Deixei de ser Fiel (iniciante no crime). Pra quem não conhece, Falcão é o que traz tranquilidade na quebrada, à noite. Eu ficava ali, de tocaia, com ou sem chuva. Lá em cima... A vista era linda, a fauna de pedra, parecia vagalumes, um do lado do outro. Mas não podia me distrair com essas coisas. Falcão não dorme. Tinha que ficar à noite ate amanhecer o dia, de vigia. Por conta disso, pra manter-me ativo, eu dava um “teco” (cheirar). Não era viciado, mas precisava.
 Até que um dia, tudo mudou. Estava eu no baile, bolso cheio, mulher de monte. Nessa vida é assim: bolso cheio abra-se ala pra felicidade, mano. E com uma 9 na cintura... As minas ficavam fascinadas. Porém, nem tudo são flores, ta ligado? Sem querer, todo chapado, passei informação demais pra uma das minas. Mas deixei suave, elas não iam ser X-9. Além do mais, não queriam ficar na mira da minha 9. Vai vendo. Estava eu lá, fazendo meu trabalho, quando de repente, sou surpreendido por um tapa na cabeça, seguido de um grito: “joga a arma no chão, bandido FDP!”. Tentei revidar, mas estava na desvantagem. E não ia dá tempo de liga os manos no radio. Bateram-me ate cansar, ate falei pros cana que tinha pagado a tarifa (Tarifa: propina). Os canas ligaram o chefe, ai eu fiquei tranquilo. Pô, mó vacilo meu, mas o chefe vai deixar passar essa. Que nada. Só escutei a frase que ecoa ate hoje: “faz o que quiser com esse ai. Vacilão tem que pagar!”. Pensei na minha mãe nessa hora. Três filhos mortos na vida do crime, ter mais um... Não sei se ela ia aguentar. Então, revidei. Atirei na cabeça do safado, mas o parceiro dele é bom de tiro. Senti uma fisgada na costa. Levei 5 tiros. Passei mó tempão na UTI, só não fui direto pro IML por causa da minha coroa que chorou muito no ouvido do diretor do hospital.
Meu sonho, era ir no circo. Minha mãe até me prometeu um dia: "um dia vou ti levar no circo, meu filho. Deixa só as coisas folga mais um pouco". Até hoje... Não pense que eu entrei nessa vida por que me forçaram, não. Foi a necessidade. Negaram-me oportunidade de trabalho, alegaram que não tinha experiência. E minha coroa em casa, chorando por não ter o dinheiro do gás. É nessas horas que o crime recruta ta ligado? E mano, vai por mim. Não queira essa vida. Estude. Sua mãe um dia vai chorar, sim. Mas de felicidade, de ver seu filho formado.
Domingo de agosto. Às 20h41min. Chamo-me Daniel Nonato Ferreira da Silva, mas conhecido como 13756 (número da matricula). Paz!


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Dia De Visita

Ontem foi só tristeza, um mano se enforcou na cela. Fiquei sabendo que não suportava mais aguentar a ausência da mãe, que morreu na saída do trabalho. Um boy com seu porscher, atropelou a senhora domestica. Final trágico, porém comum na periferia. Você não sabe, mas conviver aqui com a solidão sem paz, é muito triste. Mas Amanheceu um novo dia começa. Hoje tem visita. Parentes, amigos são todos bem vindos. Dia de festa no presidio, mães trazendo seus netos pra ver o pai, esposa com noticias da filha... Vai vendo. Minha coroa trouxe meu pivete... Emocionei-me com ele vindo correndo no pátio externo, me abraça. Já não contenho as lagrimas. Quem disse que homem não chora? Em dia de visita, qualquer momento escorre uma lagrima. Eu sei que é triste fazer minha mãe vim aqui me visitar, varrendo ruas conseguiu me criar, tenho certeza que não foi isso que imaginou fazer. Aposto, que o sonho dela era me ver formado, não vegetando aqui numa cela. Mas tá tranquilo, eu juro que minha mãe não vai sofrer nunca mais. Sei que ela preferi aqui, a no cemitério. Amor de mãe, não tem como explicar.  E meu filho correndo com a bola no pátio da quadra, se Deus quiser e ouvir minhas orações, não vai o deixar seguir meu caminho. Esse qual, não teve dor nem piedade de mim. Eu lá, cara a cara com a vítima, meu mano gritou: “vai maluco, sento o dedo sem dor!” Foi tudo muito rápido, adrenalina pulsando, eu não podia mela a fita, seria mal visto na quebrada, mas, que Deus me perdoe, mas meu pivete precisa comer e, sangue frio até a alma, eu atirei. Não queria, nunca foi minha opção matar alguém. Emprego que é bom ninguém me deu. A sociedade fechava as portas, e na contra partida, os manos me ofereciam. A necessidade e o choro de fome do meu pivete, contribuíram pra eu aceitar. Caminho errado. Punição? Latrocínio, 15 anos pra puxar de detenção. Se eu tivesse escutado minha mãe, não estaria atrás de uma cela. Passando fome. Vegetando, vendo o sol nascer quadrado todos os dias. Chorar incontavelmente. Aqui só cheira morte no ar, aqui raramente se fala de amor. Só desespero, ódio e vingança. Não desejo isso pra ninguém...
A visita acabou. Vai minha mãe, leva meu pivete embora. E diz pra minha irmã, que o irmão dela a ama. Segura as pontas, que logo mais estarei de volta. Manda lembrança e agradeço pela visita!  O portão se fecha, voltamos a nossa realidade; madrugadas acordado, tremendo, pedindo pra não morrer ou planejando um fim. Na lei da cadeia, é matar ou morrer. Assim segue. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Tamo Chegando! Literatura Do Submundo, literatura marginal!



Salve, salve! Boa noite a todos! Esse é o primeiro poster. Então, esse é um projeto que venho elaborando há mile ano. Aqui vai conter historias de pessoas sem voz no campo dos excluídos no pavilhão, ou pro mano que não escutou os conselhos da sua mãe... Historias da periferia, de pessoas aos quatros cantos desse submundo! Sem mais, Literatura do Submundo! Literatura marginal!