Ontem foi só
tristeza, um mano se enforcou na cela. Fiquei sabendo que não suportava mais
aguentar a ausência da mãe, que morreu na saída do trabalho. Um boy com seu porscher, atropelou a senhora domestica. Final trágico, porém comum na periferia. Você
não sabe, mas conviver aqui com a solidão sem paz, é muito triste. Mas Amanheceu
um novo dia começa. Hoje tem visita. Parentes, amigos são todos bem vindos. Dia
de festa no presidio, mães trazendo seus netos pra ver o pai, esposa com
noticias da filha... Vai vendo. Minha coroa trouxe meu pivete... Emocionei-me
com ele vindo correndo no pátio externo, me abraça. Já não contenho as
lagrimas. Quem disse que homem não chora? Em dia de visita, qualquer momento
escorre uma lagrima. Eu sei que é triste fazer minha mãe vim aqui me visitar,
varrendo ruas conseguiu me criar, tenho certeza que não foi isso que imaginou
fazer. Aposto, que o sonho dela era me ver formado, não vegetando aqui numa
cela. Mas tá tranquilo, eu juro que minha mãe não vai sofrer nunca mais. Sei
que ela preferi aqui, a no cemitério. Amor de mãe, não tem como explicar. E meu filho correndo com a bola no pátio da
quadra, se Deus quiser e ouvir minhas orações, não vai o deixar seguir meu
caminho. Esse qual, não teve dor nem piedade de mim. Eu lá, cara a cara com a
vítima, meu mano gritou: “vai maluco, sento o dedo sem dor!” Foi tudo muito rápido,
adrenalina pulsando, eu não podia mela a fita, seria mal visto na quebrada, mas,
que Deus me perdoe, mas meu pivete precisa comer e, sangue frio até a alma, eu
atirei. Não queria, nunca foi minha opção matar alguém. Emprego que é bom
ninguém me deu. A sociedade fechava as portas, e na contra partida, os manos me
ofereciam. A necessidade e o choro de fome do meu pivete, contribuíram pra eu
aceitar. Caminho errado. Punição? Latrocínio, 15 anos pra puxar de detenção. Se
eu tivesse escutado minha mãe, não estaria atrás de uma cela. Passando fome.
Vegetando, vendo o sol nascer quadrado todos os dias. Chorar incontavelmente. Aqui
só cheira morte no ar, aqui raramente se fala de amor. Só desespero, ódio e
vingança. Não desejo isso pra ninguém...
A visita
acabou. Vai minha mãe, leva meu pivete embora. E diz pra minha irmã, que o
irmão dela a ama. Segura as pontas, que logo mais estarei de volta. Manda
lembrança e agradeço pela visita! O portão
se fecha, voltamos a nossa realidade; madrugadas acordado, tremendo, pedindo
pra não morrer ou planejando um fim. Na lei da cadeia, é matar ou morrer. Assim
segue.

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